Paraísos Artificiais (2012, Brasil) [C#070]

Com Nathalia Dill, Luca Bianchi, Lívia de Bueno, Bernardo Melo Barreto, César Cardadeiro e Roney Villela. Roteirizado por Cristiano Gualda, Pablo Padilla e Marcos Prado. Dirigido por Marcos Prado (Estamira).

“Paraísos Artificiais” é uma bela produção nacional. O diretor Marcos Prado se sai muito bem em criar uma atmosfera triste dentro de um romance, e em companhia do diretor de fotografia, Lula Carvalho (de Tropa de Elite), cria ambientes de separação das diferentes linhas de tempo da história de um jeito que o espectador não se sinta confuso, e nem que se perca no período que está assistindo. É uma pena que o roteiro não sustente todo esse esforço. Personagens com atitudes falhas, com decisões que não tem sentido, e um mistério desnecessário não criam uma empatia para que nos importemos. Assim, entendo que “Paraísos…” será um filme a ser lembrado mais pela sua beleza técnica.

Desde os primeiros momentos, o filme não foge do tom melancólico, representado por tons azuis, que é tradicional nesse tema, mas há outro bom motivo para ser usado. Nando (Bianchi) sai de um período na cadeia, ele mesmo usando roupas azuis, reforçando o estado. O reencontro com a família é pesado, principalmente com o irmão Lipe (Cardadeiro), que passou de ser um garoto mais meigo (mostrado nas fotos e adesivos na parede, e numa cena mais a frente em um quarto mais iluminado e com fotos meigas no computador), para um mais agressivo. A primeira passagem de tempo volta para quatro anos antes daquela cena, para nos mostrar uma Amsterdã também em tons azuis, fazendo ligação com o começo do filme. Conhecemos a DJ Érica (Dill), que sente uma atração que parece ser automática por Nando, que está na cidade com o amigo Patrick (Barreto). Os amigos são opostos nas suas ações, refletindo-se no flerte de cada um. Enquanto Patrick transa com uma garota que fica quase sem personalidade por causa das sombras e das cores frias do ambiente, Érica e Nando se entregam a uma paixão mais lenta, aproveitada, e mais quente (notem que as cores durante a projeção). Temos outra linha de tempo na história, voltando mais dois anos, que mostram Érica e a amiga Lara (Bueno) enquanto viagem para o nordeste, onde aconteceria o primeiro festival de música eletrônica que Érica participaria profissionalmente. Voltamos ao azul, mas de um jeito mais sutil. A cor aparece no começo, mas por ser uma época mais alegre da vida de Érica, o que predomina é um cálido amarelo (e que nas cenas de Amsterdã fazem parte constante do figurino da DJ), apesar dela carregar a cor melancólica no detalhe das unhas.

As drogas são figuras sempre presentes nos três tempos da trama, e seus estágios se refletem no desenvolvimento da história, representadas principalmente em Érica: euforia (com ela e Lara ficando nuas ao ar livre), confusão e depressão. O sexo é outro elemento importante na visão do diretor. As cenas que envolvem os personagens principais sempre é filmada de cima para baixo, como numa referência metafórica, transcendental. Existe uma certa gratuidade na transa de Érica e Lara (que é capaz de deixar o espectador sem ação), se comparada com as outras, principalmente com a do ménage que acontece mais para frente. Vejam que esta cena, que é muito mais importante para o filme, é quase pudica. O diretor quis mostrar menos por causa dos efeitos confusos das drogas na cena usando de desfoques e cores lisérgicas, mas em outros momentos a cena é bem nítida.

“Paraísos Artificiais” tem enormes qualidades: qualidade na direção, na fotografia, bom uso de liberdades poéticas (reparem na cor do cabelo do filho de Érica), na trilha sonora (mesmo para quem não é fã do estilo), e nas atuações. Mas não se firma como um bom filme em dois pontos essenciais:  no roteiro, onde essa atmosfera melancólica profunda tem menos momentos dramáticos que aparenta; e o desenvolvimento dos personagens, porque não criamos empatia com eles. As decisões de Érica e Nando são tão cheias de enganos que ficamos nos perguntando o porquê disso tudo. Principalmente na situação de Érica não parece haver um bom motivo para ela segurar tanta dor dentro de si, sem poder compartilhar com a única pessoa que poderia entender a situação. Outros problemas aparecem na montagem do filme, na cena da tatuagem, por exemplo; na edição de som, com todos aqueles sons de pista de dança que parecem não interferir nos diálogos, ou na cena perto do final, com a conversa de dois personagens ao som de um furioso mar; ou ainda, na decisão de colocar as passagens de tempo na parte menos importante da tela. É uma visita interessante, mas que falhou em pontos importantes.

EDIT: O colega de classe Thiago Dantas, do Miolão comentou que Patrick transa com um HOMEM no banheiro em Amsterdã. Culpo a qualidade do cinema 😉 Mas, como comentei, o personagem vira alguém sem forma por causa da fotografia.

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