Ato de Coragem (Act of Valor, 2012, EUA) [C#079]

Com Roselyn Sánchez, Nestor Serrano, Emilio Rivera e “U.S. Navy SEALs”. Roteirizado por Kurt Johnstad (300). Dirigido por Mike McCoy e Scott Waugh.

Se você gosta de jogos de tiro em primeira pessoa estilo “Call of Duty” e “Battlefield” esse é um filme que pode chamar a sua atenção. O filme usa do visual de intels que estamos acostumados, e em várias cenas vemos a visão dos personagens em primeira pessoa. E para dar mais realismo na produção, o diretor contratou para atuar verdadeiros Fuzileiros Navais (também conhecidos como Marines). E, dizem os produtores, as munições usadas eram todas reais. Mas são poucos os pontos que fazem “Ato de Coragem” se destacar. O excesso de narrações off, personagens que não criam carisma e uma história bem abaixo de qualquer um dos jogos das franquias citadas não conseguem sustentar o filme, que é ruim para mediano, e só um pouco divertido. Mas seria hipocrisia minha dizer que não gostei de certas decisões do diretor, já que o estilo belicoso me agrada.

O filme começa com duas histórias que vão se juntar durante a projeção. Nas Filipinas, acontece um atentado terrorista numa escola que mata um embaixador americano, seu filho, e uma dezena de outras crianças. E nessa cena em especial já podemos ver que efeitos especiais não vão ser o forte do filme. O responsável é o radical islâmico Abu Shabal (Cottle), um vilão que é apresentado com closes e mascarado. Enquanto isso, na Costa Rica, dois agentes disfarçados da CIA, Walter Ross (Serrano) e Moralez (Sánchez), investigam um cartel de drogas da região. Mas o disfarce dos dois cai, sem ficar claro se eles foram traídos ou descuidados. Os diretores do filme mostram que entendem um pouco de cinema no momento da matança. Antes de Ross abrir a porta para seus algozes, notem que a cena existem vários elementos da cor vermelha: o jogo de scribble, um livro, a cor das paredes e os abajures estão pintados dessa cor que representa classicamente a tragédia sangrenta. Moralez é levada cativa para que o chefe dos traficante  Mikhail “Christo” Troykovich (Veadov) saiba pra quem ela trabalha. E aí que entram em cenas os marines Rorke (“Rorke”), Dave (“Dave”), e outros que tem a missão de resgatar Moralez do cativeiro.

Onde os produtores esperavam que residisse a força do filme, a presença de militares experientes, é um tiro que sai pela culatra. Além da capacidade quase zero de interpretação dos militares, não é possível identificar um personagem do outro. Parece que estamos vendo Transformers de Michael Bay de carne e osso. Como os personagens principais estão sempre com roupas camufladas e ninguém é ator propriamente dito, a companhia se torna apenas uma casca, superficial. Os responsáveis pelo filme tentam diferenciar um deles com um hábito nojento de usar um palito de dentes na boca, mas é em vão. Eu não consegui marcar um personagem sequer. O filme agrada em alguns dos seus quesitos técnicos. As explosões, que são mecânicas, o design de som dos tiros, e as cenas de closes, com estilo “câmera na mão” para aumentar a sensação de realismo são as partes mais interessantes. Também gostei da cena em que os paraquedistas chegam no campo onde Moralez está sendo torturada, mostrando a queda noturna sem iluminação artifical. Foi arriscado fotograficamente falando, mas passa uma sensação interessante para quem assiste.

E indo ao inverso, pra falar de como o filme é prejudicado, além dos maiores problemas que citei na introdução, aponto também o excesso de slow-motions: o diretor usa o efeito sem discernimento, seja em cenas alegres, tristes, ou nas cenas de ação; em só um momento, perto do final que o efeito é bem usado. E o melhor trunfo do filme, que é a visão em primeira pessoa, é prejudicada mais de uma vez: em certa altura da história, quando os marines começam a usar a visão noturna, o diretor de fotografia Shane Hurlbut não consegue usar se livrar da cor esverdeada, o que deixa em vários momentos a visão do espectador fora de foco. Outras decisões, por exemplo, a de mostrar o briefing na sala da missão como ela é de verdade, repetindo falas (“esse é Mikhail Troykovich a.k.a. ‘Christo’ (…) Tentente, continue (…)Mikhail Troykovich a.k.a. ‘Christo’ “) pode ser normal, mas não funciona como filme. Mas o grande problema do filme reside no maniqueísmo de seus personagens. Os marines são não tem vícios, não erram (99% dos tiros são headshots), não passam por momentos de hesitação e um deles se sacrifica por um motivo bem pouco verossímil. Já os vilões são maus até a espinha. Na cena em que se encontram pela primeira vez, Christo e Shabal estão envoltos em sombras (mas o diretor faz questão de colocá-los em polos opostos). Christo diz que vai sumir do mapa para proteger a família, mas vai para um iate cheia de mulheres seminuas, e nem parece que está muito preocupado (aliás, que decisão idiota expor tanto luxo quando a ideia é se esconder). Já Shabal (que se chamava Yuri) concentra num único personagem tipos que já deram muito trabalho aos EUA: russo (checheno, pra ser mais exato) e islâmico extremista. E para reforçar esse perfil, os roteiristas o colocam um cena junto com outros muçulmanos que estão rezando para Mecca, mas Shabal não participa junto deles. Ou seja, essa cara é um ultimate evil!

“Ato de Coragem” é um filme violento, graficamente falando, e deve ter sofrido pressão do politicamente correto e da ala esquerdista dos EUA. Mas não vá procurando outra coisa que seja glorificação das situações de guerra; e, vejam bem, não acho isso um defeito. É um filme que deve ter agradado muito os estadunidenses, puxando também para um lado sentimental, já que no fim da projeção aparecem várias fotos de militares que foram mortos depois dos atentados de 11 de setembro, junto dos seus nomes. É bom apontar também que um dos produtores associados é Tom Clancy, responsável pela série de gamesSplinter Cell” e de livros como “Caçada ao Outubro Vermelho” e “Perigo Real e Imediato”. No fim das contas, é um filme patriótico e não me espantaria nada se a música do final fosse “Yvan eht nioj“.

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