Corações Sujos (2012, Brasil) [C#081]

Com Tsuyoshi Ihara, Takako Tokiwa, Eiji Okuda, Kimiko Yo, Shun Sugata, Celine Fukumoto, Issamu Yazaki, Ken Kaneko e Eduardo Moscovis. Roteirizado por David França Mendes (Um Romance de Geração). Dirigido por Vicente Amorim (Um Homem Bom).

“Corações Sujos” retrata parte da sociedade imigrante japonesa que aqui criaram colônia, no interior de São Paulo, depois do fim da II Guerra Mundial. E passando pela manipulação da informação, até mesmo samurais podem se cegar por aquelas características fortemente permeadas em seus corações: honra, história, dever e glória. França Mendes e o diretor Amorim, inspirados pelo livro de Fernando Morais (que não li), trazem uma história com boa carga dramática e de um jeito muito corajoso, ao fazer um filme nacional onde 99% do diálogo não é a nossa língua pátria, tão diferente de produções parecidas em outros países, incluindo o Brasil.

Quando entramos no mundo de “Corações Sujos”, somos recebidos com uma visão desfocada, que demora a tomar forma. Uma curta narração off, apenas para que o ponto de vista seja estabelecido, nos direciona para a história de Takahashi (Ihara) e sua esposa Miyuki (Tokiwa) que tiram o sustento como pacatos donos de uma loja de fotografias, que tem a porta e as janelas pintadas de vermelho. Nesse cenário de recente pós-guerra, os japoneses não podiam se ajuntar, ensinar a própria língua, nem ostentar símbolos de seu país de origem. Mas o sentimento pela pátria-mãe é bem resumido quando a menina Akemi (Fukumoto) pergunta a Takahashi porque ele não fala a nossa língua, mesmo morando no Brasil: “Não falo português. Eu sou japonês”.

Numa ação movida por preconceito, o militar brasileiro cabo Garcia (Frateschi) desrespeita o General Watanabe (Okuda) e pisa na bandeira japonesa, que é considerada sagrada para eles. Aliás, a cena da profanação da Hinomaru, com vários cortes rápidos, e o artifício “câmera na mão” é usado em vários momentos. O desmembramento da situação chega a ser surreal. O General Watanabe incita Takahashi e outros “samurais” para tomar a cabeça do Cabo como punição pelo que fez. E se você viu tantos filmes de Samurai como eu vi, pode pensar que haveria uma carnificina nesse momento. Mas Amorim, num momento um tanto Brian de Palma, enquadra os policiais que interrogam os japoneses feitos prisioneiros em uma posição mais intimidadora, com os rostos escondidos, ocupando pelo menos um terço da tela, enquanto são interrogados pelo subdelegado (Moscovis).  Aoki (Yazaki) é o interprete do questionamento, e é um dos poucos japoneses que acredita que o Japão perdeu a guerra. Por isso todos os outros compatriotas na delegacia o chamam “coração sujo”, um traidor. Aqui exista uma falha na direção, porque o caso com as forças policiais são esquecidas muito rapidamente, e o subdelegado não tem evolução como personagem, apesar de aparecer mais duas vezes na projeção. Aliás, ter ou não ter um ator global nesse papel não faria a menor diferença, parecendo ser uma imposição de distribuição da Globo Filmes. Watanabe elege sete samurais, um interessante número considerando o filme de Akira Kurosawa, para punir os que considera serem os corações sujos, começando por Aoki. O uso da manipulação e apelo do brio nacionalista é suficiente para que Takahashi seja o “eleito”, e notem como a música fica mais pesada quando ela aceita a katana e a missão de matar o “traidor”. Watanabe, Takahashi e os outros seis creem que aquele admite a derrota do Japão admite a vergonha, algo que o nacionalista não pode fazer. E é bom ver que o diretor não escondeu a brutalidade da história: apesar de não mostrar o momento, mostra a consequência. A mancha formar um círculo vermelho num fundo branco, representando a bandeira japonesa, pode ser visto com um pouco de exagero por alguns, mas aqui vale pela licença poética: apesar de ser visto como traidores, Aoki ainda era um japonês.

Destaco também no trabalho dos figurinistas o reforço do ar triste do filme. Grande parte das roupas que os personagens usam são em tons pasteis. Menos Myuki. Ela costuma usar azul, que é uma cor tipicamente feminina, mas também melancólica, como dizendo que ela quer fugir daquela situação, mas não consegue. Não é só a cultura da submissão japonesa que não permite que Miyuki questione o marido, mas ela o ama tanto que entra em seu mundo: por ele, ela também se suja de sangue, ao limpar o chão onde Aoki morreu; do mesmo jeito ela esfrega Takahashi, com força, querendo tirar dele aquela mancha. E uma cena que considero de extrema importância na psique de Miyuki é quando Takahashi está lendo uma carta de Watanabe. Ela para de ouvir o que ele fala, que não são palavras dele, e nota seu olhos, com a câmera focando nos detalhes, até que ele tenta tocar nela, e volta à realidade.

“Corações Sujos” é um filme que transborda sentimento. A relação entre Takahashi e Miyuki é bem diferente de todo filme japonês de época que vi, onde o amor não é visto como algo idealizado, tão comum em filmes ocidentais. O sentimento ufanista também é importante, ao ponto de Watanabe dizer que “para o nacionalista, a dúvida não existe”. E podemos também mencionar a relação carinhosa entre o dono da empreiteira, Sasaki (Sugata), que também acredita na derrota do Japão, com sua filha Akemi, que em determinado ponto do filme ganha um tsuru do pai, um origami que é um símbolo de longa vida. Se isso representava o estilo de vida japonês no início do século XX, não sei dizer.

Quase todos os japoneses no filme são representados por atores nipônicos, com exceção de alguns sanseis, o que dá um ar de veracidade maior ao filme. É digna de nota também a decisão dos responsáveis de usar grande parte do tempo de projeção o idioma japonês, e não aquele recurso de colocar os personagens falando um português com um sotaque puxado para a língua nipônica, e nem traduzir tudo aos espectadores, como por exemplo a placa e bilhete para a família de Sasaki. Outros pontos técnicos interessantes são o trabalho da direção de fotografia muito competente de Rodrigo Monte, até mesmo na cena da chuva, e o trabalho cenográfico e de som: notem os detalhes da sala de fotografia de Takahashi, da cooperativa de algodão, e do som das moscas.

Existem momentos falhos que prejudicam a nota final. O principal, e que me incomoda bastante, é que a história é contada pelo ponto de vista de Myuki, como ouvimos no começo, dizendo que na guerra ela perdeu o grande amor de sua vida. Mas ela vai embora antes da história principal terminar. Também se perde com a questão do conflito dos policiais, com o assunto do cabo e do subdelegado, e algumas questões da montagem. Por exemplo, numa cena da cooperativa antes de um dos samurais dizer para Takahashi que “a barra estava limpa”. Mas é um filme emocionante, que mostra mais uma vez a grande força do cinema nacional.

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